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Como implementar a Comunicação Não Violenta no trabalho

Athena Bastos

Athena Bastos


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O atrito causado por falhas de comunicação e falta de empatia não é apenas um problema de convivência; é um custo operacional que drena a eficiência das empresas.

Em um cenário onde a produtividade na América Latina tem a projeção de crescimento mais baixa do mundo para 2026 (apenas 1,0%), segundo o relatório “World Employment and Social Trends 2026”, as organizações não podem mais se dar ao luxo de perder tempo com conflitos evitáveis.

Para reverter o baixo crescimento e otimizar a performance das equipes, é preciso trocar a gestão subjetiva por uma abordagem técnica e mais humanizada: a Comunicação Não Violenta (CNV).

Neste artigo, vamos conferir o que é Comunicação Não Violenta, cenários em que ela pode ser inserida, ações para implementá-la e cases de sucesso. Continue a leitura para saber mais!

Comunicação Não Violenta: o que é?

Diferente do que o senso comum sugere, a Comunicação Não Violenta (CNV) não se trata apenas de falar com educação ou evitar confrontos. No contexto corporativo, ela é uma metodologia de interação que aumenta a clareza, reduz o ruído operacional e otimiza a colaboração entre times.

Desenvolvida pelo psicólogo Marshall Rosenberg, a CNV é um modelo estruturado que permite expressar necessidades e resolver impasses sem gerar a reatividade que costuma travar processos e desgastar o clima organizacional.

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Diante de um desafio entre pessoas da mesma equipe, por exemplo, em vez de focar em quem é a pessoa responsável pelo erro — o que gera resistência e queda de produtividade —, essa metodologia foca em quatro princípios da Comunicação Não Violenta, conforme listamos a seguir.

  • 1. Observação: diferenciar fatos concretos de avaliações subjetivas ou interpretações pessoais.
  • 2. Sentimento: identificar o impacto interno que a situação gera, o que permite uma leitura mais precisa do clima humano da operação.
  • 3. Necessidade: mapear quais valores ou requisitos estratégicos não estão sendo atendidos, como clareza na comunicação, suporte da liderança ou autonomia.
  • 4. Pedido: formular feedbacks positivos e realizáveis, focados em ações que resolvam o problema de forma prática.

Exemplos de Comunicação Não Violenta no ambiente corporativo

Para que a teoria se transforme em realidade nas empresas, as lideranças são as primeiras pessoas que devem saber traduzir os pilares da Comunicação Não Violenta em diálogos. Mas, como colocar a CNV em prática?

Abaixo, selecionamos dois cenários comuns em ambientes corporativos para mostrar como essa metodologia pode ser introduzida.

Cenário 1: atraso recorrente na entrega de relatórios

Nesta situação, o atraso de uma pessoa colaboradora com suas entregas compromete o planejamento da diretoria e gera retrabalho para diferentes equipes.

  • Abordagem reativa: “Você é sempre uma pessoa desorganizada com os prazos. Isso está prejudicando todo o time e demonstra falta de compromisso.”
  • Abordagem com CNV: ”Notei que os dois últimos relatórios foram entregues 48 horas após o prazo combinado. Eu preciso de previsibilidade para garantir que o planejamento da diretoria seja cumprido com precisão. Podemos revisar o seu fluxo de prioridades hoje para garantir que o próximo documento seja entregue na data prevista?”

É possível perceber que a primeira abordagem traz uma comunicação mais direta, o que pode causar desmotivação, defensividade e risco de conflitos. Já a Comunicação Não Violenta traz uma visão que foca no fato e na solução, sem ataques pessoais, o que consequentemente traz mais resultados.

Cenário 2: conflito de prioridades entre departamentos

Imagine a seguinte situação: a equipe de vendas reclama que um produto não tem as funcionalidades que o público-alvo precisa. Já o setor de produto diz que o time de vendas não entende a estratégia desenvolvida.

  • Abordagem reativa: “Vocês estão focados em funcionalidades inúteis enquanto nós perdemos vendas reais. É uma falta de visão de mercado.”
  • Abordagem com CNV: “Entendo que a meta de vendas não foi atingida este mês e que há uma percepção de que a estratégia atual não atende às demandas do mercado. Que tal unirmos as equipes para conversar e listar os três requisitos mais procurados para avaliarmos a viabilidade técnica?”

Enquanto a forma reativa ataca o outro setor de forma conflituosa, a Comunicação Não Violenta traz uma opção viável para que ambos os times entendam suas preocupações e visões, o que pode gerar insights positivos.

Leia também: Presenteísmo — o que é e como evitar esse comportamento

Como fazer a aplicação da comunicação não violenta no trabalho

Se a sua empresa ainda não está vivendo a Comunicação Não Violenta, saiba que é possível adotar diferentes metodologias para estruturar o diálogo e reduzir a carga emocional reativa.

A seguir, elencamos algumas orientações para você avaliar o que faz sentido para a realidade do seu negócio.

Teste abordagens

A Comunicação Não Violenta é uma habilidade que deve ser desenvolvida e adquirida com o tempo. Mas para acelerar essa adaptação nos times, como liderança você pode aplicar algumas iniciativas.

1. Gamificação da empatia

Para desenvolver a alfabetização emocional das equipes, o uso de jogos como o “Needs Poker” é altamente eficaz. A proposta central é ajudar as pessoas a nomear emoções e necessidades, criando um vocabulário comum que favorece a empatia e reduz ruídos de comunicação.

  • Como funciona: uma pessoa da equipe compartilha uma situação desafiadora vivida recentemente no ambiente profissional. As demais participantes recebem cartas que representam necessidades humanas universais — como clareza, respeito, apoio, ordem ou previsibilidade.

A partir do relato, as ouvintes “apostam” as cartas que acreditam estar relacionadas à situação, formulando hipóteses como: “Parece que você estava precisando de mais previsibilidade nesse processo”.

  • Impacto prático: ao trazer a conversa do campo pessoal para o campo das necessidades, o jogo ajuda a despersonalizar conflitos. Em vez de interpretar a irritação de um(a) colega como algo individual, a equipe passa a enxergar aquela reação como o sinal de uma necessidade não atendida. Isso facilita diálogos mais objetivos, reduz a defensividade e direciona a energia do grupo para a resolução.

2. Protocolo do Círculo de Empatia

O Círculo de Empatia é uma metodologia pensada para conversas difíceis, especialmente aquelas que envolvem conflitos, decisões sensíveis ou opiniões muito divergentes. Seu principal objetivo é reduzir reações impulsivas e criar espaço para uma escuta ativa antes de qualquer resposta.

  • Como funciona: em grupos pequenos, uma pessoa fala por vez. Quem está ouvindo não pode responder ou argumentar imediatamente. Antes disso, precisa reformular, com suas próprias palavras, o que entendeu da fala do(a) colega. Só depois que a pessoa confirmar que foi compreendida corretamente é que a conversa avança.
  • Impacto prático: o resultado é uma comunicação mais clara e menos reativa, com queda significativa de ruídos, interpretações equivocadas e conflitos desnecessários. Em processos de mudança organizacional, como reestruturações, adoção de novas tecnologias ou redefinição de estratégias, essa dinâmica ajuda as equipes a lidar com tensões de forma mais produtiva.

Leia também: Tudo sobre gestão de mudanças — o que é e como estruturar na sua empresa

Lidere pelo exemplo

A Comunicação Não Violenta no trabalho só se torna uma cultura quando é modelada pela gestão. Isso significa que a liderança deve atuar como o “espelho” do protocolo de comunicação da empresa. Quando uma pessoa líder admite uma vulnerabilidade ou expressa uma necessidade de forma clara, ela incentiva o time a fazer o mesmo.

Como consequência, líderes que praticam a CNV transformam o feedback em um processo de ajuste técnico, e não em um julgamento de valores. Essa ação pode reduzir o turnover e aumentar a velocidade de execução das mudanças, pois as pessoas gastam menos energia se defendendo e mais tempo colaborando.

Leia também: Liderança pelo exemplo — o que é, como fazer e dicas para aplicar

Use a Inteligência Artificial

Você sabia que a Inteligência Artificial pode atuar como uma treinadora de soft skills? Se usada de forma estratégica, as ferramentas de IA podem ser utilizadas para algumas ações, conforme mencionamos a seguir.

  • Simular conversas difíceis: líderes podem treinar feedbacks complexos com assistentes de IA que sinalizam quando a fala está sendo julgadora ou reativa.
  • Traduzir conflitos: a IA pode analisar um e-mail ríspido e ajudar a identificar as “necessidades não atendidas” por trás daquela mensagem, evitando uma resposta igualmente agressiva.
  • Redigir pedidos claros: auxiliar na escrita de solicitações para outros times, garantindo que a comunicação seja clara e sem duplas interpretações.

Leia também: IA para treinamentos corporativos — o que é, vantagens, desafios e como usar

Comunicação Não Violenta: exemplos de cases de sucesso

Para você se inspirar ainda mais, abaixo vamos conferir brevemente dois exemplos de empresas que já adotaram a CNV em suas rotinas, além de conferir quais foram as mudanças percebidas pela gestão.

First Watch

A rede de restaurantes First Watch, nomeada um dos “Most Loved Workplaces 2025” (locais de trabalho mais amados de 2025), é um grande exemplo. Sua liderança realiza turnês nacionais denominadas “We Hear You” (nós ouvimos você), dedicando milhares de horas para escutar, sem filtros, as necessidades de pessoas que atuam como cozinheiras, garçons e garçonetes.

Resultado: ao transformar a empatia em uma prática de gestão, a empresa reduziu drasticamente o turnover em um setor conhecido pela alta rotatividade.

Patagônia

A Patagonia é um exemplo claro de empresa que transforma valores em prática. Seus pilares, qualidade, integridade, responsabilidade ambiental e justiça social, não ficam apenas no discurso: eles orientam decisões estratégicas e a forma como a empresa se comunica, tanto internamente quanto com o público.

A companhia utiliza princípios da Comunicação Não Violenta para alinhar suas mensagens à sua missão de preservação ambiental. Isso fica evidente em ações, como processar governos para proteger terras públicas ou lançar campanhas como “Don’t Buy This Jacket”. O objetivo dessas ações não é atacar ou gerar conflito, mas defender uma necessidade organizacional clara: a conservação do meio ambiente.

Resultado: essa coerência entre discurso e ação consolidou uma cultura na qual os valores servem como guias concretos para decisões difíceis. Isso se reflete em maior lealdade à marca, engajamento das equipes e credibilidade no mercado.

Como promover a Comunicação Não Violenta no ambiente de trabalho híbrido e remoto

No trabalho híbrido e remoto, a maioria das interações acontece por mensagens escritas. Sem tom de voz ou linguagem corporal, a comunicação digital se torna mais sujeita a interpretações negativas, o que aumenta o risco de ruídos. Por isso, aplicar os princípios da Comunicação Não Violenta nesse contexto exige mais atenção e clareza.

Uma prática essencial é a empatia assíncrona: antes de enviar uma mensagem, vale refletir sobre como ela pode ser recebida por alguém sob pressão ou sem contexto emocional.

A dica é: sempre que houver ambiguidade, acrescente intenção e explique o objetivo da conversa, pois isso ajuda a preservar a segurança psicológica de ambas as partes. Mensagens contextualizadas desde o início reduzem a ansiedade e evitam leituras defensivas.

Também é importante criar acordos de convivência digital, como o respeito ao tempo de resposta, a organização das conversas e a valorização de espaços de reconhecimento e gratidão. Esses cuidados promovem pertencimento e tornam a comunicação mais humana, mesmo à distância.

Por fim, como última recomendação, para desenvolver uma melhor comunicação entre as lideranças e as equipes, além de outras soft skills, a Alura + FIAP Para Empresas oferece formações em comunicação, RH e liderança, preparando pessoas para colaborar melhor em ambientes cada vez mais mediados por tecnologia.

Entre em contato com a nossa equipe de especialistas e saiba como a nossa parceria estratégica pode ajudar a sua empresa a promover as competências essenciais para o seu time!

Leia também: Como construir e gerenciar uma equipe de alto desempenho?

Athena Bastos
Athena Bastos

Coordenadora de Comunicação da Alura + FIAP Para Empresas. Bacharela e Mestra em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC. Pós-graduanda em Digital Data Marketing pela FIAP. Escreve para blogs desde 2008 e atua com marketing digital desde 2018.